Hollywood não se cansa do Mito do Herói? Que saco.

17 03 2009

Semana passada assisti Força Policial, chamado aqui pelas distribuidoras como “A Tropa de Elite americana”. Pride and Glory, como é chamado em inglês, é pra ser um filme sobre a polícia de Nova York, mais especificamente sobre alguns policiais do 31º Distrito que se vêm envolvidos em uma crise de corrupção que está prestes a vir à tona. Se a história realmente seguisse a linha de Tropa de Elite e girasse em torno dessa trama principal, com o elenco que eles reuniram (que conta com nomes como Edward Norton e Colin Farrel) e com algumas cenas realmente muito boas que eles produziram, esse filme tinha de tudo pra ser um enorme sucesso. Mas acontece que Hollywood ainda insiste em usar o tão manjado Mito do Herói, que sempre funcionou e sempre vai funcionar. Mas chega uma hora que cansa, né?

Aos que me perguntam: mas o que raios é esse mito do herói que você tanto fala? Bom, vou tentar resumir bem resumidinho pra ver se faz algum sentido.

Um grande mitólogo chamado Joseph Campbell, junto (num mesmo momento, mas não juntos) com um psicólogo e psiquiatra chamado Carl G. Jung, desenvolveram uma teoria psicológica baseada no desenvolvimento dos mitos. Segundo eles, os mitos refletem padrões psicológicos típicos a todos os humanos, os Arquétipos. Esses arquétipos são padrões típicos de comportamento que falam das situações típicas da vida humana, como nascimento, morte, desfios, crise, maternidade, fome, desejo, depressão, alegria, entre vários outros. Na verdade, pra cada situação típica que você conseguir pensar, você consegue relacionar isso a um arquétipo. E pra cada arquétipo, existe um mito ou padrão mítico que fala sobre essa experiência. Esse padrão mítico é conhecido como mitologema.

Então podemos falar do mito de Hércules, de Aquiles, de Édipo, de Sansão, de Sigfried e de quem mais for. Todos esses mitos diferentes que contam histórias diferentes sobre pessoas ou personagens diferentes, todos eles seguem um mesmo mitologema ou tema mítico, o do herói. Esse mitologema tem uma estrutura muito semelhante, ele fala de uma jornada que necessariamente tem alguns passos a serem seguidos.

A começar, o herói tem algumas características. Uma delas é a do “duplo nascimento” ou da “dupla filiação”. Isso quer dizer que o herói necessariamente tem dois pais ou duas mães ou dois nascimentos. E isso pode se dar de várias formas. Hércules, por exemplo, é filho de Zeus com Alcmene, mas ele também tem um pai mortal, Anfitrião. O Super-Homen também tem isso, ele é filho do pai criptoniano Jor-El e do pai terreno Jonathan Kent. O mesmo acontece com Jesus de Nazaré, que é filho de Deus e de José. Além de ter dois pais (ou duas mães), o duplo nascimento pode acontecer por um segundo nascimento, devido a algum evento importante, como uma iniciação numa ordem secreta, ou sobreviver a um grave acidente, como aconteceu com o Batman, que viu seus pais serem assassinados na sua frente; esse evento traumático serviu como um segundo nascimento para Bruce Wayne. O duplo nascimento é o que diferencia o herói dos outros mortais, pois ele garante ao herói um status de quase-divindade. E é por isso que as histórias dos heróis são tão emocionantes pra nós, já que eles podem um pouco mais do que nós meros mortais e nos servem de exemplo.

Além de ter um nascimento diferente, o herói passa por uma jornada complicada. Ele inicialmente descobre que é diferente e por isso precisa trilhar um caminho diferente. É então que ele começa sua jornada enfrentando perigos que muitos não ousariam enfrentar. Estamos falando de monstros e vilões e bruxas e seres de outros planetas e cientistas malucos e demônios e coisas que nós meros mortais não enfrentamso. Acontecem muitas coisas em sua jornada e ao final acontece algo chamado de redenção do herói, que é quando ele percebe que ele chegou no seu ápice, já se mostrou maior que tudo e todos, mas que agora ele precisa voltar para a sociedade e devolver tudo aquilo que ou ele tirou dela ou ela deu a ele. É um momento onde o herói se descobre humilde e humano, como todos os outros e é então que ele se torna sábio. Muitas vezes, esse momento acontece na morte do herói, que é quando ele reconhece sua finitude, que ele chegou ao fim e que ele não é mais tão “super” quanto acreditava.

Se você parar pra pensar, essa é a estrutura básica de mais da metade das histórias que conhecemos, seja elas das HQs dos super-heróis, ou dos desenhos animados ou dos filmes de Hollywood. Até aí, tudo bem. Mas acontece que Hollywood já conseguiu mostrar que consegue fazer histórias muito boas sem precisar recorrer a esse mitologema, a essa estrutura típica. Aliás, o cinema mundial conseguiu mostrar isso. O próprio Tropa de Elite é um filme que mostra um herói decadente, que no final ele não se redime, no final ele se encontra dentro de sua própria força!

Existem vários outros modelos que só dependem da nossa imaginação. É claro que o mito do herói fala bastante para nós, pois ele fala da nossa condição humana, da construção da nossa identidade social. Mas, sinceramente, hoje em dia sabemos que nossa vida não se resume só à nossa identidade social. Nós temos nossas crises, nossos problemas, nossos conflitos internos, nossos sonhos e muito mais coisas que fogem do simples padrão do mito do herói. E acho que é isso que Hollywood não entendeu até agora.

O filme Pride and Glory conta, de novo, o mito do herói. Pra não soltar spoliers, basicamente o nosso herói (que tem duplo nascimento, pois seu pai, além de ser seu pai biológico, é policial, ou seja, ele nasceu para a vida e para a polícia) precisa enfrentar uma jornada onde ele se depara com a realidade de sua vida. E a jornada não é fácil, pois ele precisa fazer escolhas difícies, mas no final ele se redime e vai buscar justiça e não vingança. Justiça é a vingança para a sociedade e vingança é a justiça pessoal. Ou seja, nosso herói prefere se redimir para a sociedade do que buscar a glória pessoal. Novamente, Hollywood se utiliza da resolução do conflito do mito do herói e não consegue se renovar!

Eu poderia pensar em vários finais alternativos para a história, entre eles, do nosso herói bonzinho desde o começo perceber que a polícia é corrupta e que não existe redenção e se entregar à corrupção. Ou ainda, dele perceber isso e resolver se aposentar antes da hora. Ou ainda, de ele ser condenado por algo que ele não cometeu, pois ele, ao tentar ser bonzinho, os outros policiais acabam entregando o herói da história que não faz nada pra não incriminar seus amigos e parentes, ele vai pra cadeia e é morto pelos outros bandidos que pensam que foi ele quem matou ou foi responsável pela morte do vilão-mor. Então todos se esquecem desse herói perdido e a vida continua, pois a sociedade toda está corrupta e não adianta a ação de um herói solitário para redimi-la.

Essa mesma trama principal poderia ter seguido vários outros caminhos. E qualquer caminho que ela seguisse, com certeza teria sido muito melhor do que o rumo que ela seguiu. Esse filme foi muito ruim e muito fraco e não traz nada de novo para nenhum espectador ou para qualquer pessoa que pelo menos tem o costume de ler ou ver filmes de vez em quanto. Ou até mesmo pra quem se lembra dos contos-de-fadas que ouviam quando crianças! Assitam só se vocês quiserem ver algumas poucas cenas de ação e violência gratuita e uma cena de abertura de alguns minutos em take único sem cortes (esse foi o ponto alto da produção do filme). De resto, esqueçam Força Policial e assistam de novo Tropa de Elite. Capitão Nascimento deixa toda a polícia de Nova York no chinelo!

E espero que esse filme sirva pelo menos para percebermos que o mito do herói já não funciona mais como funcionou antigamente e que hoje precisamos procurar um novo mito para nossas vidas… mas que mito seria esse? Bem, isso é um assunto para um outro artigo…





Por que não comemoro o Dia Internacional da Mulher

8 03 2009

O mundo todo fica todo florido hoje, dia 8 de março. Muitos votos de felicidade para as mulheres, pois a final, hoje é o Dia Internacional da Mulher! Mas eu não comemoro esse dia. Eu não desejo a nenhuma mulher nada pelo dia de hoje. Eu acho isso uma incrível e tremenda hipocrisia. Por quê? Bem, porque eu me perguntei há algum tempo, “por que se comemora o dia internacional da mulher”? E a resposta abriu meus olhos.

Tudo começou com a industrialização do mundo. O trabalho começa a migrar do campo e do artesanato pras fábricas e indústrias. Como tudo era muito novo, o foco dos industriários era o trabalho e a produção e pouco se pensava sobre o trabalhador. A final, o trabalhador já estava “acostumado” a ser mal tratado nos campos e nas produções artesanais onde era empregado (ou praticamente escravo com pouco pagamento).

Nessa época, final do século XIX, início do século XX, todos trabalhavam, homens, mulheres, jovens, velhos, crianças. As contas eram muitas e o pagamento era pouco. Se a pessoa tinha a mínima condição física de trabalhar, ela trabalhava. Crianças de 4 anos estavam nos chãos de fábrica e idosos com mais de 60 também. Homens e mulheres trabalhavam com certa igualdade, mas é claro que a mão-de-obra masculina ainda era mais valorizada, pelo simples motivo que o mundo era machista e entendia que o homem tinha mais força física, maior inteligência e mais resitência para aguentar o trabalho das fábricas. Mas mesmo assim as mulheres trabalhavam.

Nessa época começaram os primeiros movimentos feministas ou de valorização (e muitas vezes exagerado, temos que reconhecer, mas talvez necessário) do trabalho da mulher. Muitas mulheres protestavam nessa época tentando ter mais direitos enquanto trabalhadoras. Muitas morreram tentando isso em vários protestos. Reza a lenda que várias delas foram trancadas dentro de um prédio de uma malharia com início de incêndio e foram queimadas vivas. Muitas outras morreram pisoteadas nas manifestações ou nas mãos dos policiais que tentavam conter as coisas.

Esses grupos feministas, com o apoio dos partidos comunistas e socialistas do mundo todo, elegeram o dia 8 de março como o dia internacional da mulher devido a uma manifestação onde várias mulheres morreram, para reconhecermos nesse dia o valor da força da mulher no trabalho. E conseguiram. Em Copenhagen, em 1910, esses grupos feministas e socialistas organizaram uma conferência que declarou dia 8 de março como o dia internacional da mulher.

Esse dia foi comemorado nas décadas de 1910 e 1920, mas depois esfriou, até a década de 1960 quando, durante a guerra fria, ele voltou a ser comemorado. E 1975 a ONU declara como o Ano Internacional da Mulher e começa a patrocinar a comemoração do Dia Internacional da Mulher. E parece que deu certo. Nos anos ‘80, o trabalho das mulheres começa a ser mais valorizado e muitas começam a ter lugares de privilégio nos trabalhos, gerência e até mesmo presidência.

Mas hoje em dia isso tudo só passa como desculpa para se vender flores e chocolates e batons e cosméticos. Virou comercial, como tudo. Hoje, o Dia Internacional da Mulher só significa que as lojas de produtos femininos vão vender um pouco mais, que as floriculturas também. Hoje, quando falamos do Dia Internacional da Mulher, não pensamos na luta pela valorização das mulheres. Além disso, estamos comemorando o martírio de várias delas com flores e chocolates. COMEMORAMOS o Martírio de Mulheres! Isso não é meio estranho para um dia que deveria ser de valorização?

E outra. Hoje em dia, sinceramente, isso parece estar meio datado. As mulheres já conseguiram o que queria e se igualaram aos homens. Já podem usar calças, não precisam mais ter filhos para serem alguém na sociedade e podem trabalhar o quanto quiserem, falar grosso e beber cerveja, como todas as outras pessoas. Era isso que as mulheres queriam, né? Se tornarem iguais aos homens. Tá, e agora que conseguiram, querem ter um dia para que os homens se lembrem disso. E enquanto os outros 364 dias? Bem, esses ficam para os homens, né? Já que só existe um dia internacional pra mulher, os outros dias são para os homens!

Acho uma tremenda hipocrisia isso. Se conseguimos valorizar as mulheres e idenficá-las como iguais, precisamos então diferenciá-las com um dia exclusivo? Pode parecer #mimimi de homem querendo também ter um dia de valorização do homem, mas não é. Sinceramente, não gosto dos homens e prefiro muito mais as mulheres, mas mesmo assim, enquanto psicólogo, sou forçado a reconhecer que o século XXI será das mulheres enquanto os homens entram em crise. Estamos vivendo uma crise da masculinidade apontada por vários pesquisadores hoje em dia.

Os homens já não sabem mais qual é o seu lugar na sociedade. Muitos, que foram criados para o trabalho, hoje cuidam das casas, dos filhos, enquanto as mulheres trabalham. Os homens, que eram proibidos de brincarem de casinha, hoje fazem isso de verdade. E frente a isso se sentem impotentes para fazer qualquer outra coisa, impotentes para dizerem não às mulheres e com isso se tornam impotentes diante das mulheres. E não respondem como os homens são supostamente esperados a responder na cama (ou em qualquer outro lugar). As mulheres então correm atrás de outros homens e os homens atrás de outras mulheres que não os precionem tanto. Casamentos acabam devido a isso. Famílias são destruídas por causa disso. Homens que não se sentem homens buscam isso na violência, no alcoolismo, nas drogas, nas brigas, batendo nas mulheres e nos filhos. Homens só precisam bater nos outros  para diminuir o outro e se sentir maior. Violência familiar acontece principalmente porque os homens não sabem mais qual é o seu lugar e procuram isso através da única forma que sabem: violência, a mais primitiva busca pelo poder.

É claro que a crise da masculinidade não tem nada a ver com o Dia Internacional da Mulher. Mas, sinceramente, diante desse mundo onde vivemos, e diante de tudo isso, vale a pena comemorar o Dia Internacional da Mulher? Será quem em pleno Século XXI vale a pena comemorar o massacre e o martírio de mulheres no início do século XX com flores e chocolates e tiras cor-de-rosa? Vale a pena trazer a feminilidade à tona, a delicadeza das mulheres, a beleza e a sutileza do “sexo frágil” sendo que elas hoje em dia estão muito mais fortes do que os homens? Será que temos que ser hipócritas o suficiente para dar um dia para as mulheres, darmos os parabéns por elas não terem pênis e sangrarem todos os meses com direito a cólicas e dores de cabeça, só para que o resto do ano a gente possa ter a desculpa pra não fazer isso?

Me desculpem as mulheres, mas de mim vocês não vão ouvir hoje nenhum voto de parabéns ou felicidades. Mas saibam que de mim vocês vão ter durante os 365,25 dias do ano todo o respeito e valorização que vocês merecem. Não preciso de um decreto de um dia internacional pra reconhecer o quanto adoro as mulheres e o quanto eu quero sempre tê-las comigo.





Uma vez eu sonhei…

23 12 2008

Engraçado tudo isso… Acho que é mania de psicólogo.

Mas hoje eu sonhei que estava analisando meus próprios sonhos! Tudo bem que faz tempo que não faço isso, com qualquer sonho… mas sonhar que analisava sonhos? Poxa… vai ser mais direto assim lá longe!

Essa é uma coisa dos sonhos: eles são sempre muito mais diretos do que a gente imagina. O grande problema é que eles tentam falar tudonumacoisasó e daí pode ficar confuso. Tipo, o que é que tem de direto num sonho onde você tem uma barragem virtual na pia da sua cozinha e dentro dessa pia você também tem restos de um carangueijo cozido que é confundido por um frango frito e que precisa ser dedetizado?

O sonho aqui está tentando mostrar muita coisa junta, usando imagens que a gente viu ou pensou recentemente (para facilitar nossa compreensão), mas numa organização própria do sonho… Essa imagem eu realmente tive nesse sonho de hoje. E é engraçado que em um momento essa barragem virtual começou a vazar por pontos equidistantes um do outro, fazendo aquele efeito cascata onde um fio de água vai mais longe do que o outro. Só que normalmente, o fio mais de baixo vai mais longe, só que nessa barragem não! O fio mais próximo à superfície era o que ia mais longe e o mais perto do fundo era o que ficava mais perto…

As leis da física não se aplicam aos sonhos. Eu consigo constantemente (se me lembro disso, é claro), voar nos meus sonhos, é só eu querer… E respirar debaixo d’água também… São coisas que aprendi nos meus sonhos… Mas é a primeira vez que vejo um carangueijo cozido sendo mantido dentro da minha pia da cozinha! Me lembra de uma vez que tirei uma foto de um carangueijo segurando uma coxinha de galinha na casa do meu padrinho… Um carangueijo sendo confundido por um frango frito… E o cara que iria dedetizar a pia desse carangueigo/frango era o motorista da van que nos levou para e nos trouxe de São Paulo para o show dos Engenheiros do Hawaii… Eu fiz uma aposta com ele que se aquilo não fosse frango frito que ele iria deixá-lo lá, mas ele não honrou com a aposta e mesmo assim dedetizou o carangueijo…

Mas por que eu queria esse carangueijo, se eu nem gosto dessas coisas?!

São coisas dos sonhos… são coisas que preciso entender e assimilar, mas que no momento não consigo… alguém tem alguma pista pra me ajudar?

Originalmente publicado em:  01/06/07