Desejo…

20 01 2009

Fazia tempos que não chovia tanto assim. De certa forma, a chuva era reconfortante. Enchia todos os ambientes de som e um cheiro gostoso de chuva. No campo tudo fica mais gostoso. A única coisa que não era bom era sua solidão.

Estava sozinho. Estava se dedicando ao seu livro e por isso queria solidão. O livro estava saindo melhor do que se estivesse na cidade, mas mesmo assim ele sentia falta de uma companhia, uma outra pessoa que fosse, nem que fosse só para olhar e admirar. Por isso gostava muito de dormir. Em seus sonhos ele era visitado por todo tipo de pessoas e isso ao menos o confortava.


Ele preparou uma caneca de chocolate quente e foi até a varanda admirar a chuva caindo na grama e formar pequenas poças de água. As goteiras eram ritmadas e vê-las e ouvi-las lhe era muito bom. Pareciam o galopar de uma tropa de cavalos, mas não em qualquer lugar, mas sim na praia, com as ondas quebrando a seus pés. Ele podia vê-los correndo, sem dono, sem destino. Era só fechar seus olhos.

Mas nisso ele também a via. Não conseguia ver seu rosto, mas sabia que era ela. Ela chorava, ou não. Era difícil saber quando se está sonhando. Mas parecia um anjo. Tudo o que ele queria era estar com ela, mas estavam longe. Por isso gostava de sonhar, pois nos sonhos ele podia ao menos a ver. Nunca sabia o que dizer. Para ele era estranho isso, pois estava escrevendo um livro, um romance, repleto de personagens e histórias de amor. Mas quando isso falava sobre sua própria vida, ele não sabia o que dizer. A única coisa que sabia fazer era olhar e admirar, mesmo em seus sonhos.

Fazia quase uma semana que chovia direto. Mas era uma chuva fraca e de vez em quando parava por alguns minutos. Pareciam lágrimas do céu lavando a terra. Quando acabou seu chocolate quente, ele voltou para dentro e pensou consigo mesmo por que será que ela sempre estava triste em seus sonhos? Ela não tinha motivos para isso, a final, ela era amada por ele e era tão linda. Mas mesmo assim estava triste. Mas quem tinha motivos para estar triste era ele que estava sozinho naquela casa afastada de todos, inclusive dela. Mas ela também estava sem ele. Então ele percebeu que ela também poderia estar triste, que ela também poderia desejá-la.

Correu para o telefone que estava desligado desde o dia em que chegara. O colocou na tomada e discou seu número. Não sabia o que iria falar, mas ele precisava ao menos mostrar que também a amava, que não havia se esquecido dela. Amar em segredo é fácil pois não se cai em erros. O difícil é quando precisamos mostrar isso. E a beleza está justamente na possibilidade de errar…

Originalmente publicado em: 08/07/2007


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